h1

Guerra e Paz

junho 5, 2009

Em minha opinião, o post anterior tentou demonstrar um paradoxo fundamental que existe numa situação de conflito. Palavras como “vingança”, “força” e  ”justiça” foram utilizadas. Lendo atentamente revela-se uma teimosia poderosa por parte de ambas as partes. O leitor se pergunta: “Existe algum tipo de racionalidade que possa justificar essa política que traz prejuízo para ambos os lados?”. Talvez conclua que ambas as partes são irracionais, que ninguem consciente” tomaria esse tipo de atitude. 

Aí está a grande armadilha para o leitor. Aquilo que é irracional (não tem racionalidade) não pode ser compreendido e não tem justificativa. Apontando todas essas características sobre um conflito é impossível para o observador fazer sentido de sua  história, analisar os fatores que o tornaram provável e que o incentivaram, buscar métodos para desestimulá-lo.  Afinal, os lados “deveriam estar cooperando”… a realidade nem sempre se adeqüa a o que ela deve ser.

A segunda armadilha, ainda que menor, é focar toda a atenção do leitor em um ponto. Cuidado, leitor, estamos analisando um conflito extenso que com certeza já existe a décadas e talvez até a séculos. Fraco e forte,  injusto e justo, conflitivo e cordial, todas essas expressões já oscilaram entre um lado e outro no Oriente Médio. Poderá uma imagem ou alguns fatos, substituir o enorme conjunto de informações que se tem a respeito do conflito presente naquela região?

A última armadilha para o leitor (talvez tenha se sentido em um campo minado digno do próprio conflito descrito) é incetivá-lo a realizar um juízo de valor. Existe uma guerra irracional. Essa guerra é pintada através de um trágico quadro. Não é triste o que se passa? Não é injusto? Injusto? Quem comete a injustiça? É esse mesmo que devemos condenar… Mas isso realmente traz alguma luz sobre o conflito? Sugere algum método novo, alguma proposta não anteriormente estudada? Certamente palavras como justiça já foram utilizadas em inúmeros contextos por ambas as partes. Isso apenas não revela o quão pouco uma idéia como justiça é capaz de informar? De forma última, cada qual julga sua posição enquanto justa.

Ofereço uma nova proposta ao leitor que se deu ao trabalho de ler até aqui. Em primeiro lugar, que assista ao vídeo da cerimônia de premiação do ganhador do Prêmio Nobel da Economia de 2005 que certamente inspirou esse texto e que trata do tema “Guerra e Paz” : http://nobelprize.org/mediaplayer/index.php?id=624 

Em segundo lugar,  caso realmente se interesse pela questão, estude a história do conflito no Oriente Médio. Leia a versão dos fatos escritas pelos dois lados e também por aqueles que são mais neutros. Não se espante se palavras como Justiça, Vingança e  Irracionalidade rapidamente começarem a sumir das frases.

Em terceiro lugar, para aquele que chegou até esse ponto. Realize o debate proposto por Aumann. Quais as causas (racionais) que levam à guerra? Quais causas (racionais) levam à paz? Como incentivar as segundas e coibir as primeiras?

Aí sim algo de novo, crítico e com reais possibilidades de trazer algum tipo de aprimoramento à situação estará sendo construído…

5 comentários

  1. Um texto cheio de armadilhas, enfim!

    Concordo, Rafa. É mais ou menos por aí. Todos esses conflitos não se tratam de fatos isolados, mas sim de um conjunto de fatores, que devem ser analisados intrinsecamente.

    Mas talvez não seja interessante que as pessoas analisem essas situações com cuidado. Talvez os estereótipos e falácias sejam muito bem-vindos por parte da imprensa, por exemplo.

    Ótima reflexão.


  2. Texto interessante, Rafa!

    É uma análise pertinente, ainda que eu ache que as críticas sejam demasiadamente exageradas para um texto que não se pretendia, em nenhum momento, ser conclusivo com o assunto ou apresentar uma resposta / método de solução do conflito.

    Inclusive, minha intenção era, principalmente, desconstruir um pouco do maniqueísmo e, também, lembrar que “numa terra de olho por olho e dente por dente todos logo se tornarão cegos e banguelas”.

    A despeito disso, acho que você trouxe à discussão coisas muito importantes: não nos importa sentir, se do nosso sentir não nos propusermos a pensar como interferir de maneira positiva. Ou seja, embora o sentir seja ato necessário para que se disponha à atitude, ele não é suficiente para transformá-la.

    Ou seja, de tudo o que recebemos da mídia, de tudo o que lemos por aí, precisamos estar preparados para nos proteger, sim, de falácias e convenientes e tendenciosas opiniões. Não que uma análise fria e puramente imparcial seja possível, de forma alguma, em um conflito com tanta magnitude e abrangência, mas que, ao menos, estejamos dispostos a pensar um pouco além da superficialidade a que comumente somos submetidos.

    Só cuidado para não tornar tudo “complicado demais”. Existem certos princípios, basilares, que deveriam ser sim aplicados à presente situação e que atuenariam em muito este conflito, e que infelizmente não são porqu as pessoas não sentem como atrocidades coisas que normalmente assim deveriam enxergar.

    Grande abraço,
    Gabriel


  3. não sabia que vocês tinham esse blog…vou colocar nos links do meu


    • “Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou a suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era um que via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
      Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.” Fernando Pessoa

      O que é a razão? O que é a verdade? Será que ambas nos levam a ser justos?


  4. Aquilo que é irracional pode ser compreendido e possui justificativa. Considerar agentes como racionais é um método de verificação sobre a impossibilidade de propostas. Mas pode torná-las tão ideais que inúteis. Isto é mesmo um método de verificação?
    melhor dizendo: Quais as causas (racionais ou irracionais, quais são as mais relevantes? é possível quantificação?) que levam à guerra? Quais causas (racionais ou irracionais, quais podemos promover?) levam à paz?
    Como incentivar as segundas e coibir as primeiras?



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.